segunda-feira, 27 de abril de 2009

Uma mordida com sotaque portenho

[Sobre Coisa de negros, de Santiago Vega]

O argentino Santiago Vega também é conhecido como Washington Cucurto. A preocupação do autor em forjar heterônimos e biografias para integrá-las a um universo ficcional farsesco é uma das estratégias do desempenho performático levado a cabo nas narrativas que escreve. Ele começou publicando poemas e escreveu apenas narrativas curtas (entre o conto e a novela) que apareceram em pequenas editoras. Santiago Vega também é um dos editores responsáveis pelo projeto Eloisa Cartonera, que tem como principal linha editorial a publicação de narrativas breves de autores argentinos e inspirou o projeto brasileiro Dulcinéia Catadora. A proposta cartonera pretende intervir no espaço público comprando papelão dos catadores de rua a fim de reciclar esse material para as capas de suas publicações. Vários textos do próprio Vega-Cucurto foram publicados por essa editora alternativa. Os textos são fotocopiados e as capas costumam anunciar o preço pago pelo quilo do papelão, além de outras pequenas brincadeiras como a classificação do gênero da publicação – “Narrativa Sudaca Border” – e a advertência da ficha catalográfica, “sólo se permite fotocopiar", que é uma clara ironia à proibição de reprodução nunca respeitada.

O lançamento de seu livro de maior fôlego, Cosa de negros, publicado pela primeira vez na internet, é acompanhado por um pequeno encarte que mescla informações biográficas do próprio Santiago e de sua persona fictícia (“Quieres ser Cucurto? Sigue la evolución Cucurtiana”). Zombando do evolucionismo cientificista – fotos do autor imitam a posição do homem de Neandertal até a postura vertical –, a apresentação é feita através de uma linha do tempo que atravessa os momentos mais destacados da carreira literária de Cucurto/Vega. Além da inevitável menção à herança peronista que marca a infância do escritor (“El lema del padre... era repetir, después de cada comida: No quedará en pie ni un ladrillo que no sea peronista”), a história argentina aparece pontuando a sua “evolução” biográfica, através da referência ao período militar associado à conquista do título mundial de futebol pela seleção Argentina, entremeada à sua própria iniciação literária.

Como construtor da caricatura de si mesmo, Santiago Vega é um fingidor. O desdobramento da figura autoral em personas que ora se assumem como autores, ora como críticos, atiça o jogo entre alter-egos e heterônimos. O ato performático de criação de uma persona com nome e sobrenome que tem a liberdade de um personagem com biografia independente – Cucurto é dominicano, nascido na década de 1940 e desaparecido desde 1979 depois de uma passagem por Buenos Aires – é fundamental ao universo narrativo de Santiago Vega. Suas histórias são povoadas pelos temas da imigração e da exclusão social, sem nenhum laivo panfletário, e resgatam os estereótipos e os restos não aproveitáveis pela literatura, comprometendo-se apenas com a invenção de uma trama: “Cucurto es como una grande recicladora de pavaditas, de todo lo que ‘queda mal’ en la literatura” [1].

A tática de uma biografia inventada quer consolidar um produto, fazer do próprio autor um texto, “libro-escritor”, que se apresenta ao mercado pela impostura desinibida da performance: “Se trata del escritor que se vende a sí mismo como personaje y que se ofrece al mercado como un intelectual y descubridor de una zona inexplorada de la cultura" [2]. A recriação de um léxico que mistura gírias, ditados populares e falares paraguaios, antilhanos e portenhos, justapondo discursos de registros diversos, é o maior investimento do texto para representar uma contemporaneidade imediata e torná-la palpável pela ficção. Mas isso também já rendeu polêmicas. Seus livros já foram acusados de racistas e queimados em praças por leitores exaltados que não aceitaram sua distribuição na rede escolar.

A lógica narrativa aposta no exercício do humor, da incoerência, da criatividade divertida e exige que o leitor capte o sentido da representação. A opção por expor a arrogância, os preconceitos e a intolerância com a diferença étnica ou social encarnando-os em uma voz que simula essas atitudes é provocadora pela lucidez que demonstra na análise da cultura e pela dubiedade de sua atuação: performance crítica ou adulação fetichista?

O humor que permeia o ato performático não permite uma resposta definitiva. A espetacularização do politicamente incorreto põe em crise as convenções sem pretender nenhum gesto revolucionário. Simulando seguir o senso comum, seu movimento é um desafio a contrapelo da cumplicidade ingênua: “Al personaje (Cucurto) lo uso para liberarme. Mi literatura está siempre detrás del dislate. En meter la pata a cada rato”, afirma o escritor.

É o nome de Washington Cucurto que aparece estampado nas capas dos livros, apresentado como verdadeiro autor e protagonista de Cosa de negros. A narrativa tem um ritmo alucinante e apresenta algumas características comuns às duas outras novelas escritas por Santiago Vega. A lógica do disparate domina e é apoiada por uma linguagem mestiça que, mimetizando a oralidade, combina gírias, trechos em guarani e expressões populares. O texto é armado como um espetáculo e anunciado por uma voz que o apresenta à maneira de um show circense: “Señoras y señores, bienvenidos al fabuloso mundo de la cumbia”. A cumbia, estilo musical que invadiu a Argentina na década de 1990, é a trilha sonora fixa dos enredos. Surgida na Colômbia, o gênero originalmente era uma espécie de rapsódia de elementos indígenas, africanos e europeus. A versão argentina da cumbia ganhou ares de canção de protesto e encontrou nas favelas, ou villas, os seus principais intérpretes, uma espécie de funk carioca. A cumbia villera viveu seus dias de boom e explodiu em todo o país, sendo totalmente absorvida pelo mainstream. Os pibes chorros das favelas ganharam fama rápido e passaram a ser cultuados como ídolos e glamourizados por multidões. As histórias de Cucurto-Vega sempre se arriscam ao entrelugar do espaço proletário de cozinheiras, catadores de papel e porteiros que freqüentam os bailes de cumbia e a mitificação do mundo idealizado das letras pasteurizadas das canções.

Cucurto, “El sofocador de la cumbia”, irrompe na cêntrica Buenos Aires chegado da periférica República Dominicana como o astro principal do show de aniversário dos quinhentos anos da cidade. Desde o início, assume seu figurino, seguindo à risca a rubrica de seu personagem: “más de dos metros de altura, el pelo y la piel azabaches, brillantes anillos de zafiros en los dedos, botas tejanas al estilo teniente Collings”. Desembarcando no terminal rodoviário da Plaza Constitución, a efervescência e os contrastes chamam sua atenção: “el habitual albedrío multicolor del barrio” disfarça a Buenos Aires que “a un paso tiene la fama y el dinero o un colchón debajo de un puente”. O passeio da narração em terceira pessoa pelo centro confuso desenha a iconografia da cidade em meio aos camelôs, carrinhos de cachorro-quente, caos no trânsito e música em alto volume. A voz narrativa assume também a função de um ventríloquo que se apropria das falas do senso comum e expõe os preconceitos latentes.

Na primeira peripécia vivida por Cucurto, que precisa correr em meio ao trânsito enlouquecido atrás do táxi que não esperou seu embarque, sua condição de “negro” é ressaltada em um mix de intolerâncias: “Tucumano sembrador de papas!”. Os chistes machistas, xenófobos, homofóbicos que permeiam toda a história são dublados pelos personagens ou pela voz narrativa e encenados por uma atuação espalhafatosamente exagerada. A misoginia se revela em reprovações e elogios machistas que assumem o mesmo status e encontram ressonância no mais empedernido feminismo. Dessa forma, expressões ofensivas (“Si sos más corrida que el tango La Cumparsita”) são desculpadas por uma cômica desfaçatez poética: “Cómo quisiera ser picaflor y que vos fueras clavel, para libar el capullo de tu boca”. Cinismo que lembra a dicção do brasileiro Marcelo Mirisola.

Cada um dos personagens condensa um arsenal de frases feitas e opiniões do senso comum, repetidas ritualisticamente. A irritação de Henry, o motorista da Ferrari responsável por transportar Cucurto até o local do show, simula a postura reacionária de condenação a qualquer mobilização política: “Vayan a laburar, manga de vagos, viejas cholas, vayan a cocinar con esas cacerolas”. A frase, apropriada teatralmente, podia ser ouvida nas ruas depois da crise de 2001 durante os “cacerolazos” e encarnava a defesa de uma suposta ordem civil que se considerava ameaçada pelas manifestações populares. O tom de burlesco ridículo que cerca essas enunciações permite que elas sejam desconstruídas, sendo negadas pela afirmação. Ao contrário da classe média, execrada por Mirisola, aqui não há uma classe específica que condense uma mentalidade média e as falas reproduzem um automenosprezo. Henry, ele mesmo dominicano, reprova a imigração das primas: “Cállense, dominicanas del demonio... se vienen a mi país para putear acá... Que no hay trabajo! No queren fregar pisos...! Eso es lo que pasa!”. A brutal naturalização dessas opiniões está entranhada e se prolifera na ação dos próprios marginalizados. É dessa situação de esquizofrenia que Vega tira partido para fazer rir. O riso tem a consciência cínica dessa cumplicidade, mas quer expô-la ao ridículo.

O exagero é outro instrumento da espetacularização que aposta em um enredo de dramalhão folhetinesco para realçar a farsa. A paixão fulminante do astro por Arielina, com quem só esteve por alguns minutos, é traduzida pela intensa refrega sexual: “Cogeme, negro, cogeme... Dame con todo, sacudime la persiana, enterrámela hasta el fondo, enjuagame el duodeno”. Toda conotação agressiva é suavizada pela comicidade da cena, pelo exagero do detalhismo das descrições lúbricas. Ao mesmo tempo, seguindo e desrespeitando as regras de uma inocente história de amor, convivem, digamos, emoções mais fortes (“La tenía enterradísima bien en el fondo”) e as mais descabeladas juras de amor: “Si te sacan de mi lado me mato! Te llevás mi feminidad!”.

A carnavalização das referências históricas é mais um elemento reiterativo do tom farsesco da narrativa. As menções a Perón e a Evita são constantes e surgem em contextos disparatados e cômicos. Os líderes políticos aparecem, ora como espectadores do show de Cucurto (“vamos a mantener un aplauso sostenido para nuestras estrellas invitadas de lujo... El cadáver de la señora Eva Duarte de Perón, las manos del General”), ora como fantasmas nos sonhos dos personagens. A ironia dessacralizadora escarnece da obsessão e da paranóia com os mitos políticos e proclama a “República Revolucionária Productiva del Disparate”. O show que comemora o aniversário de “La Reina del Plata” termina com o seqüestro do presidente frente às câmeras de televisão e faz a narrativa avançar em um ritmo vertiginoso de peripécias. Arielina se converte em militante de um grupo revolucionário clandestino que pretende tomar o poder e se declara filha única de Eva Perón. Investindo na construção de uma teoria da conspiração em versão humorística, Vega aposta na inverossimilhança como indício de veracidade. Perón teria conhecido o pai de Arielina em um prostíbulo masculino que costumava freqüentar na República Dominicana e o teria contratado como mordomo. Logo depois, Eva se apaixona por Perseo Benúa, verdadeiro pai de Arielina, que pretende revelar toda a história aos argentinos e conquistar o poder.

O humor da ficção faz questão de brincar com os boatos a respeito da masculinidade de Perón e com o lastro de instabilidade política do país: “se nota una gran seguridade. Nada de sabotajes, alarmas de bomba, secuestros y asesinatos múltiples”. Por seu envolvimento com Arielina, Cucurto é seqüestrado pelo vice-presidente que pretende impedir o golpe e restabelecer a ordem. A narrativa se prepara para um final de confusão apoteótica. Todos se encontram em uma pizzaria e a irresistível atração dos protagonistas descamba para uma descontrolada orgia sexual envolvendo todos os personagens: “Y a esta altura lo que estaba sucediendo era la mayor corrupción sexual en la historia del país! Y todita llevada a cabo por inmigrantes!". A cena final também satiriza a narrativa do boom fazendo voar pelos ares, com todos os personagens da novela, o cortiço onde vivia Arielina, que fica pairando sobre Buenos Aires, apocalipticamente tomada pelas águas do Río de la Plata.

O caráter improvisado da narrativa sobrepõe-se a qualquer rigidez estruturante do relato e calca o pacto de leitura na conversão da verossimilhança em desatino. Assim como Perseo Benúa, antes apresentado como avô de Arielina, pode, sem maiores explicações ao leitor, passar a pai da protagonista, o desenlace surpreende pela inusitada configuração paródica da política argentina: de hot-sexy-love, Arielina passa a militante revolucionária. A superficialidade dos personagens-tipo afrouxa os elos narrativos, acelera o ritmo do relato e provoca o disparate.

Santiago Vega compôs um repertório bastante diferenciado em relação à narrativa dos anos 1990 na Argentina. Ao trazer para o universo ficcional questões como a imigração e a pobreza crescente, abordando-as através da encenação performática dos preconceitos raciais e sociais, o escritor demonstra um apetite pela contemporaneidade que esteve ausente da narrativa argentina na última década.

A presentificação, nesse caso, não pode furtar-se a tematizar o esgarçamento do tecido social que certamente foi a área mais duramente atingida pela versão menemista do neoliberalismo na Argentina. O fenômeno do crescimento das “villas”, o subemprego, a avassaladora intromissão dos meios massivos na vida privada (a partir da qual Menem praticamente se pensou como um produto), enfim, todas as desgraças assinaladas como males do capitalismo tardio permeiam o universo narrativo de Santiago Vega.
Nesse sentido, o universo cucurtiano de bairros proletários, imigrantes ilegais e bailes de cumbia demonstra uma sensibilidade aberta à contemporaneidade que remete ao paradigma do artista como etnógrafo, defendido por Hal Foster. Em The return of the real, o autor tematiza os impasses que rondam a disposição engajada do artista e de sua produção. Considerando como modelo para o paradigma do autor-etnógrafo as premissas levantadas por Benjamin em seu artigo “O autor como produtor”, Foster identifica muitas persistências negativas desse modelo na nova atitude política do artista, apesar de todas as ressalvas benjaminianas na tentativa de superar o impasse que colocava em campos opostos qualidade artística e relevância política.

Segundo ele, a principal diferença entre os paradigmas diz respeito à substituição de um sujeito definido em termos de relação econômica para um outro definido em termos de identidade cultural, embora os perigos continuem os mesmos: a tendência a acreditar na interdependência das transformações artísticas e políticas, a quase-certeza de que essa transformação depende do outro (“no modelo de produção, (...) o outro social, o proletariado explorado; no paradigma etnográfico, (...) o outro cultural, o oprimido pós-colonial, subalterno ou subculturalizado” [3]) e a exigência de que o autor se identifique com esse outro para que esteja habilitado a “representar” a alteridade. Esses riscos expõem o autor à armadilha do “patronato ideológico”, para a qual Benjamin já alertava, e têm como conseqüência a essencialização do diferente. O argumento de Foster defende que “a codificação automática da diferença aparente como identidade manifesta e da alteridade como margem deve ser questionada” [4] e critica a apropriação do outro pelas práticas artísticas do modernismo pela mera operação invertida que preserva estereótipos: “idealizar o outro como a negação do mesmo” [5].

Pode-se identificar na literatura de Santiago Vega um olhar etnográfico atento a seu entorno, mas precavido contra os perigos simplificadores do engajamento político da prática artística. O texto se esforça por anular as formas de populismo, driblando a identificação do outro como vítima e escapando ao gesto contrário da desidentificação que fantasmagoriza a diferença. Recusando a autenticidade, a estratégia é a atuação ventríloquo-performática que canibaliza ambos os gestos, através da apropriação polifônica que delata a violência cultural e reinventa uma posição de resistência: “Siempre se trata de poner en la boca de los personajes (y de sí, el protagonista, héroe y animador cultural), las voces de aquello que la cultura mira con pudor, asco o miedo” [6]. A atitude-travesti dos narradores cucurtianos (“juego a ser vos. Me visto de vos”) é o verdadeiro virtuose da estrutura cínica capaz de incorporar uma multiplicidade ideológica, colaborar com todas e não encarnar nenhuma de maneira autêntica, investindo na “potencia (política) de jugar con el malentendido" [7]. Parecendo concordar com a sugestão de Foster de que a distância crítica é a única ferramenta capaz de assegurar a negociação entre “o status contraditório da alteridade como dada e construída, real e fantasmática” [8], a performance cucurtiana baralha essas formações e escolhe se colocar em um entrelugar instável (“Ni ALLÁ – opción populista – ni ACÁ – opción etnocéntrica”), posicionando-se em uma distância implicada: “No se trata del ENTRE de la conciliación, sino del lugar en el que el conflicto real es posible” [9].

O que impede a alienação e a essencialização dessa alteridade é o gesto deliberadamente farsesco de um texto que se declara falso e repudia compromissos com a mera reprodução do real. Não é à toa que a autodefinição de estilo por Vega joga com a idéia de um realismo de blefe, um “realismo atolondrado”, “una literatura basada en el ridículo, en el absurdo, en el despepite de vivacidades estrafalarias”.

[1] "Apuntes sobre el realismo atolondrado", entrevista a Bárbara Belloc.

[2] Schettini, Resenha de Cosa de negros.

[3] “in the producer model, (...) the social other, the exploited proletariat; in the ethnographer paradigm, (...) the cultural other, the opressed postcolonial, subaltern, or subcultural”. Foster, The return of the real, p. 173.

[4] “the automatic coding of apparent difference as manifest identity and of otherness as outsideness must be questioned”. Id., p. 175.

[5] “idealize the other as the negation of the same”. Id., p. 178.

[6] Schettini, Resenha de Cosa de negros.

[7] Díaz, Resenha de Cosa de negros.

[8] “the contradictory status of otherness as given and constructed, real and fantasmatic”. Foster, op. cit., p. 203.

[9] Díaz, op. cit.

* * *

Referências bibliográficas:

CUCURTO. Cosa de negros. Buenos Aires: Interzona, 2006. [Ed. original: 2003].

BELLOC, Bárbara. "Apuntes sobre el realismo atolondrado", entrevista com Cucurto em Radar Libros. 26 jun. 2003.
Justificar a ambos lados
DÍAZ, Valentín. Resenha de Cosa de negros, na revista eletrônica La Máquina Excavadora, mar. 2004.

FOSTER, Hal. The return of the real: the avant-garde at the end of de century. Cambridge (MA): The Mitt Press, 1996.

SCHETTINI, Ariel. Resenha de Cosa de negros, em Radar Libros, 20 abr. 2004.

Luciene Azevedo é professora da UFBA

Nota 1: este artigo foi publicado na revista Estudos 
de Literatura Brasileira Contemporânea, nº 30. 
Brasília, julho-dezembro de 2007, pp. 79-87. 

Nota 2: O encontro do grupo de leitura 
aconteceu a 2a. feira 30.03.2009, 
na Universidade de Brasília.

domingo, 12 de abril de 2009

Sem resgate ou redenção



Há alguns anos Luiz Ruffato vem povoando nossa literatura com gente sem nenhum glamour. No lugar dos intelectuais e artistas que circulam com desenvoltura por tantos romances e contos, ele empurra para dentro costureiras e operárias cansadas; em vez de traficantes sanguinários (e exóticos), traz ladrões baratos que tropeçam nas próprias pernas ou homens bêbados, envergonhados por não conseguirem sustentar os filhos. Enfim, um bando de trabalhadores pobres, de desempregados, de migrantes fracassados que ignoram a placa de “não há vagas” e se instalam ali, onde “não é o seu lugar”. Eles entram e vão carregando consigo suas frustrações, seu cheiro de suor, seus objetos de plástico e suas mesas de fórmica, transportam sua vida mais íntima, impregnada de sonhos.

Voltam agora, com O livro das impossibilidades, quarto volume de Inferno provisório, um conjunto programado de cinco obras que pretende contar um pouco do Brasil das últimas décadas a partir do interior de Minas, da pequena Cataguases, de onde saem, em levas, trabalhadores para os grandes centros urbanos. Se nos volumes anteriores o leitor era convidado a transitar por entre imigrantes italianos, ex-pracinhas, meninos malcriados, freqüentadores de botequim e tocadores de viola de épocas mais distantes – há um percurso temporal no projeto de Ruffato – neste quarto volume ele desembarca, junto das personagens, em plena ditadura militar, no final dos anos 1960. E dali prossegue, acompanhando trajetórias que vão dar nas favelas e nas prisões dos dias de hoje.

O livro se estrutura a partir de três narrativas diferentes, que não se comunicam diretamente, mas se completam em uma espécie de mosaico – recurso literário presente em toda a obra do autor, e metáfora impecável para as vidas que descreve. Vidas que lembram aqueles murais feitos com cacos de azulejos, que cobrem as fachadas pobres das casas dos trabalhadores, aspirando à beleza e à individualidade. Na primeira história, o percurso da família que migra para São Paulo e vai se virando em meio à pobreza, graças à mulher que trabalha dia e noite enquanto o marido passa as horas enroscado no sofá, “inútil como a folhinha dois anos passada”. Na segunda, a carta e as lembranças de um homem ainda apaixonado pela distante colega do colégio. Sua escrita é uma tentativa de retomar certa alegria da infância, ao mesmo tempo em que observa os pedaços que perdeu pelo caminho. Na terceira, duas narrativas correm paralelas – literalmente, uma vez que o texto está disposto em duas colunas –, contando a vida de dois meninos de Cataguases, da época da escola até a maturidade.

O tom de memorialismo que os resumos dos enredos parecem anunciar esbarra logo nas “impossibilidades” do título do livro. Não há resgate nem redenção nessas narrativas. Linha após linha, vemos o cerco se fechar em volta das personagens. Se no início da primeira história – uma bela homenagem às mulheres trabalhadoras – temos a jovem que se muda com o marido para a cidade grande, dá um jeito de trazer a família inteira e criar, orgulhosa, os filhos que virão, ao final ela aparece como a senhora cansada, que empurra sozinha o peso das responsabilidades do dia-a-dia. Da mesma forma que o homem da carta, na segunda história, parece ir se afogando no que conta, sendo arrastado pela certeza de que não pode mudar o que já é passado e tampouco imaginar um outro futuro.

Mas é a última parte do livro que pode causar algum estranhamento no leitor de Ruffato, mais acostumado com suas narrativas fragmentadas, onde o acesso à personagem é sempre parcial, como se apenas cruzássemos com ela, que segue caminhando e vai embora. Aqui, deixamos de ser os pedestres apressados e viramos testemunhas atentas. Zezé e Dinim são os meninos que crescem juntos e se separam na adolescência, se reencontrando mais tarde. Vão vivendo às margens, esbarrando nos muros e despencando nas ladeiras, cometendo pequenos delitos, que tomam proporções cada vez mais drásticas. Seguimos seus passos, freqüentamos suas festas, entendemos seus medos. Terminamos junto de um deles, em 2001, dentro da prisão, arrebentado pela tortura policial.

Zezé e Dinim não são vistos por aí, com arma em punho, exigindo “aquilo que a sociedade lhes deve” ou atirando para ver se “os bacanas grudam na parede”, como em algum conto de Rubem Fonseca, e também não são apresentados como as abstratas e passivas “vítimas do sistema”. São construídos como indivíduos, envoltos em suas circunstâncias e marcados pelos limites que lhes são impostos – assim como a Nelly e o Aílton, das outras duas histórias. Como as obras anteriores de Ruffato, esse livro é extremamente violento. Mas, ao contrário de boa parte da produção literária atual, não somos nós – leitores de classe média – o alvo: não é o nosso corpo, o nosso carro, os nossos filhos que estão sob a mira. São eles os protagonistas, sufocados por impossibilidades que se duplicam a cada gesto, a cada movimento, e que só chegam até nós como experiência humana graças às possibilidades da escrita.

Regina Dalcastagnè.
Professora de Literatura da UnB e pesquisadora do CNPq.


Nota: este texto foi publicado no jornal O Globo em 22.11.2008 (p. 5 da seção Prosa & Verso). O encontro do grupo se realizou a 2a. feira 16.03.09, duas semanas antes da apresentação do volume em Brasília.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

"O enteado": a experiência poética de Saer

O enteado

O romance O Enteado (1983), do escritor argentino Juan José Saer, traduzido pelas precisas mãos de José Feres Sabino e publicado pela editora Iluminuras, não é apenas mais um entre tantos textos que ficcionalizam e parodiam a história da conquista espanhola da América. Embora não seja desconhecida dos brasileiros, a obra de Saer ainda não ocupa o espaço que merece em nosso país. Mas com este texto, podemos dizer que sua desconcertante narrativa, tão diferenciada das demais correntes da literatura argentina, começa realmente a ganhar corpo entre nós.

Em O Enteado, temas e obstinações centrais da literatura de Saer, como a ênfase na experiência poética, o exercício de reflexão sobre a escrita, e o questionamento do estatuto da memória e da percepção, emergem para o leitor através da escrita autobiográfica de uma personagem que, aparentemente, participou de um dos episódios mais significativos da história da América hispânica: o ingresso das naus de Juan Díaz de Solís no estuário do Rio da Prata —algo equivalente à chegada das naves portuguesas de Cabral às costas brasileiras.


O texto, ambientado na Espanha e na América do século XVI, consiste nas recordações de um ex-grumete da armada espanhola que, depois de ter sido capturado por indígenas de uma tribo americana chamada Colastiné, e ter de passar dez anos entre eles, decide, décadas depois, rememorar sobre sua vida, detendo-se sobretudo nos anos em que testemunhava seguidamente a singular cerimônia de canibalismo dessa tribo, crivada de orgias e dominada por pulsões de morte e destruição.


Assim, diante de uma narrativa que nos faz lembrar em alguns aspectos os relatos picarescos, o leitor, enquanto conhece as andanças dessa personagem órfã por terras americanas e espanholas, assiste a uma intensa problematização da percepção da realidade e das possibilidades de representá-la. Da mesma forma, as lembranças da personagem se encontram atravessadas continuamente por uma inflexão dubitativa e hipotética, que aproximam o relato em muitos momentos de uma negatividade quase absoluta. Não é por acaso que o verso de Carlos Drummond de Andrade “vejo tudo impossível e nítido no espaço” é usado em muitas oportunidades por Saer para definir sua práxis literária.


Por meio dessa personagem que procura, a partir do espaço de extrema solidão de seu quarto, reconstruir mediante sua vacilante memória a própria história individual e as vozes perdidas desses indígenas americanos, observamos uma narrativa que põe em dúvida e reflete sobre a alteridade e a ambivalência das fontes históricas e etnográficas. Nesse espaço e tempo em que transbordam preocupações existenciais, o romance discute ainda a
complexa e arbitrária relação entre linguagem e experiência de mundo. Nota-se um intenso trabalho sobre o plano narrativo, numa tentativa de levar para o espaço ficcional a intensidade da percepção poética de mundo através da reelaboração das estruturas e dos ritmos da prosa.


A tentativa da personagem, já quase ao final do livro, de interpretar o significado da refeição canibal dos indígenas e a posterior festa orgiástica praticada por eles, revela-se um gesto que nos conduz a instância sempre problemática dos seres e objetos, dando ao texto um valor filosófico incontornável. Além disso, o banquete antropofágico, que fazia os colastinés provar anualmente uma experiência de estranhamento radical com o mundo exterior e de um distanciamento extremo entre indivíduo e mundo, nos fazem lembrar a angústia descentralizante de A Naúsea de Jean Paul Sartre e a introspecção metafísica de Paixão segundo G.H. de Clarice Lispector.

Juan José Saer nasceu em Serodino, província de Santa Fé, Argentina, em 28 de junho de 1937, e transferiu-se para Paris em 1968, com 31 anos, por diferentes razões. Seus pais imigraram da Síria. Dando continuidade a uma linha da literatura argentina que questiona e desconfia do estatuto da literatura, Saer em O Entenado desdobra e aprofunda estas inquietações no marco de problemas como a função poética da narrativa, o sentido do real e a dimensão cognoscitiva da literatura. Em termos gerais, Saer renova as formas e estruturas narrativas tradicionais, ao examinar criticamente a literatura latino-americana em tempos de boom, censurando seu entusiasmo totalizante, e ao ajustar os elementos expressivos de sua narrativa no interior da tradição literária argentina. Compartindo com outros escritores do interior argentino a preocupação de superar as limitações de um regionalismo, Saer, com uma consciência crítica e artística muito aguda e sem abdicar de seu referente espacial, a província de Santa Fé, emprega forças em penetrar e interrogar a singularidade cultural, histórica e política de seu tempo, com o fim de transcender a uma esfera mais ampla, de alcançar uma imagem do indivíduo frente às próprias circunstancias mais acabada e comprometida com a experiência vital e espiritual do homem.


Paulo Thomaz.
Doutorando em Literatura Hispano-Americana pela USP.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Distantes de tudo

Até o dia em que o cão morreu

Na orelha da primeira edição de Até o Dia em que o Cão Morreu, João Gilberto Noll diz que Daniel Galera nos mostra "seres quase que em estado de natureza, em diáspora com o mundo administrado pela burocracia das horas, dos empregos fixos, seres que se sentem mais à vontade com os bichos -franciscanas criaturas sem qualquer resquício do sagrado. A morte ronda. Nada parece fazer muita diferença. Eis um livro, eu aposto, que será lido pelos que emergem na idade adulta com toda a sofreguidão".

O renomado romancista gaúcho está certo nesta última colocação, já que o livro de Galera trata de um tema que, contraditoriamente, é bastante contundente: a indiferença. É um assunto difícil, não só por ter sido já explorado já em clássicos como O Estrangeiro, de Albert Camus, ou em Estorvo, de Chico Buarque, ou mesmo em praticamente toda a obra do próprio Noll, mas também por suscitar as mais variadas reações no leitor. Este pode se identificar com a postura do protagonista (em geral, e este livro não é exceção, quando o tema é a indiferença esta aparece no protagonista) e acabar adorando o livro, ou rejeitando a obra de forma absoluta por conta da postura de um dos personagens.

Até o Dia em que o Cão Morreu é um romance incisivo no cenário que traça: se na maioria dos livros sobre indiferença o leitor é apresentado a um mundo desinteressante, alienante, cheio de pessoas mesquinhas, vazias ou até mesmo (por que não dizer?) burras, temos nesse caso um protagonista que rejeita ativamente a pulsante vida que o cerca. Ele tem uma namorada (pode ser que o termo não seja adequado) cheia de sonhos e frustrações pessoais, e acaba conhecendo, no decorrer do enredo (ou não-enredo, já que é constituído de pouquissimos eventos), figuras muito interessantes (um porteiro com talento para a pintura abstrata, um motoboy divertido que cuida alegremente de sua família), e lembra com admiração implícita a história de seu avô que construiu com as próprias mãos uma casa na qual viveu seus últimos anos. No entanto, o protagonista opta por permanecer trancado em seu apartamento vazio, voluntariamente sem emprego (sustentado pelos pais), sem diversões, com um mínimo de vínculos. Não se trata de um panorama absoluto da indiferença, em que várias pessoas agem de forma desinteressada pela vida (como equivocadamente interpreta Noll em sua empolgação com o livro), e sim da descrição de uma espécie de resistência ao mundo real e suas possíveis e variadas decepções.

A razão por trás dessa escolha nunca é revelada, se houve alguma grande decepção em seu passado ou algum fracasso pessoal muito grande, algum espírito misantrópico desenvolvido depois de reflexões filosóficas. Nas poucas páginas do romance, só se tem acesso ao resultado, ao cinismo e ao tédio de uma pessoa dotada de espírito crítico e analítico (como fica claro com algumas de suas conclusões no decorrer da história) porém sem a capacidade (ou vontade?) de fazer coisa alguma com o seu tempo. Aos outros personagens que aparecem na história só resta falar de suas vidas, já que falar da dele é praticamente impossível.

No segundo romance de Daniel Galera, Mãos de Cavalo, o assunto aparece novamente, só que num plano secundário, relegado a uma personagem coadjuvante. A esposa do protagonista demonstra grande talento em várias das atividades, mas perde a vontade de seguir além do primeiro passo, desistindo antes mesmo de encontrar algum percalço. Depois de sua primeira exposição bem-sucedida de artes plásticas, desiste. Tenta montar uma pequena empresa e abre mão de sua parte. O protagonista, quase oposto de sua cônjuge nesse sentido (um cirurgião plástico bastante afamado), nada pode fazer por ela. O livro cita de forma direta uma frase de J.G. Ballard (do romance Terroristas do Milênio), em que diz: "minha vida é uma dança das cadeiras, só que ao contrário. Cada vez que pára a música botam mais cadeiras". É uma situação parecida com o protagonista de Até o dia em que o cão morreu, embora no livro anterior o caso seja ainda mais radical: ele tem tudo para ser "um sucesso", condições financeiras, educação, apoio da família e nada sai disso.

O romance de Daniel Galera se estrutura em capítulos curtos, praticamente "separáveis", cada um com sua particular coesão e expressividade. Falta à obra, no entanto, um certo poder de síntese, de tal forma que esta fraqueza parece se infiltrar até no protagonista, que acaba por se mudar de volta com os pais e entrar num programa de Mestrado em Literatura perto do final do livro. Há trechos inspirados (como o primeiro e o último capítulos), mas talvez seja a própria individualidade possível desses capítulos, ponto forte do livro (em aparência), o impedimento para que o todo seja maior que a soma de suas partes. Ao mesmo tempo que a brevidade impede que a história se torne entediante (com a falta de eventos no enredo), impede também que algo se desenvolva além da descrição do estilo de vida do protagonista, que se consiga dar o salto do particular para algo além. Não se trata de cumprir a suposta obrigação de toda obra de arte ter contornos sociológicos ou filosóficos, mas de incorporar algo além da mera específicidade. Da mesma forma que o protagonista vê pouco além das paredes de seu próprio apartamento, o texto não consegue sair das páginas que formam o volume.

Breno Kummel.
Bacharel formado na UnB (na área de Literatura).
Encontro correspondente à 6a. feira 16.11.2007.

quarta-feira, 19 de março de 2008

A doença no exílio

"Lorde" de João Gilberto Noll "A síndromde de Ulisses" de Santiago Gamboa

A situação de exílio tem sido um mote produtivo para a literatura ligada ao Ocidente. Se Ulisses é a personagem inauguradora/emblemática dessa tradição, é justamente a ele que o colombiano Santiago Gamboa se refere já no título de seu quinto romance, A síndrome de Ulisses (Planeta, 2006, tradução de Luis Reyes Gil), publicado na Colômbia em 2005. A citação ao épico grego é de segunda mão já que o título se refere, antes, a uma patologia que provoca distúrbios em imigrantes. No entanto, por se tratar de literatura, e, como veremos a seguir, literatura sobre o desterro de escritores e, de algum modo, das literaturas nacionais da periferia do ocidente, é impossível não enxergar uma tentativa de deslocar o termo da psiquiatria para a produção literária. Ainda na intercessão entre o universo das patologias e da literatura (que é, por si só, outro motivo literário profícuo) o romance Lorde, do gaúcho João Gilberto Noll (Francis, 2004), também toma como tema o desterro de um escritor, que adoece ante o estranhamento causado pelo que lhe é estrangeiro.

De evidente inspiração autobiográfica, as narrativas apresentam dois escritores de países periféricos, mais especificamente da América Latina, que se deslocam à Europa, em direção a suas duas grandes capitais culturais –Paris e Londres–, a fim de dar um (novo) sentido a sua escrita e que ante a dificuldade de integração com o meio, encontram o erotismo como fuga. Esse conjunto de pressupostos comuns de Lorde, de João Gilberto Noll e A síndrome de Ulisses, de Santiago Gamboa, resulta em narrativas que podem ser lidas relacionalmente, principalmente por se tratarem de relatos elaborados a partir de consciências particulares de sua diferença colonial, que se encaminham para sentidos totalmente distintos em que, como veremos, o primeiro produz uma peça literária de envolvente criatividade, o segundo apresenta a confirmação de uma série de clichês sobre a condição do imigrante.

Esteban, o protagonista e narrador de A síndrome de Ulisses, é um jovem colombiano aspirante a escritor que emigra para a França e, sediado em Paris, matricula-se em sua principal universidade num curso de pós-graduação sobre a literatura hispano-americana. Dotada de um magnetismo cultural sem par para os intelectuais latino-americanos, a mesma Paris que atrai o jovem também o decepciona, já que o curso não consegue envolvê-lo. A promessa acadêmica, assim, é a primeira de muitas a ser descumprida e, da universidade, o narrador não leva senão o amigo marroquino Salim. As aulas são burocráticas e o professor apresenta-se como uma figura antipática, representando uma instituição que parece repelir aqueles que não estão prontos a aderir a ela. Sintoma disso é o fato de Esteban permanecer quieto, à margem da aula, pelo domínio frágil que ainda tem da língua francesa. O descontentamento com a academia, longe de ser a forte demonstração de um espírito crítico é, na verdade, um clichê na narrativa da formação de um escritor (o primeiro de muitos de que o romance se servirá), que, original, dotado de um “gênio” único e, ousaria dizer, “rebelde”, repele a “burocracia” de um meio acadêmico opressivo.

É importante chamar a atenção, contudo, para o amigo Salim, um marroquino estudioso da literatura argentina que se afigura como um mistério para Esteban. O fato de que a obra de Leopoldo Marechal não precise estar inscrita nas fronteiras do país em que foi produzida e possa interessar a um marroquino, não como uma curiosidade antropológica ou histórica, mas como um texto literário num sentido mais amplo, é algo que Esteban inicialmente não consegue compreender. Contudo, num romance que volta sistematicamente seu olhar para as margens –da universidade, de Paris, do mundo ocidental e do sistema literário mundial– a ligação entre Salim e a literatura argentina chama a atenção para a possibilidade de uma aliança nas margens: nações com histórias e projetos tão distintos, que teriam pouco em comum além do fato de terem sido colônias de metrópoles européias, e mesmo assim, com projetos coloniais bastante diferentes, estabelecem o diálogo a partir da identificação entre o sujeito de uma nação e a literatura de outra. A discussão, no entanto, não avança no romance, voltando, superficialmente, nas conversas em que Esteban inquire Salim sobre o Marrocos e este sobre a Colômbia do narrador.

Outra promessa que não se cumpre na narrativa de A síndrome de Ulisses, é a própria cidade de Paris. Esteban somente transita em espaços que pouco guardam da imagem turística fixada sobre Paris e que, certamente, é a que ele levou da Colômbia. O personagem vive num cubículo, de onde, após desistir do curso na universidade, sai apenas para trabalhar no porão de um restaurante chinês. É no restaurante que Esteban conhece alguns personagens que ocuparão grande parte da narrativa: imigrantes ilegais africanos, asiáticos e do leste europeu, que o conduzem por uma Paris marginal.

As margens do espaço e de si
Se o emblemático Louvre é evitado pelo narrador de A síndrome de Ulisses, a National Gallery, de Londres é reiteradamente visitada pelo narrador de Lorde. Isso se deve principalmente ao fato de que os percursos dos narradores dos dois romances têm rumos diferentes. O conjunto de imagens mais utilizado por Gamboa para evidenciar a presença das margens no seu romance vem da periferia da cidade em que o protagonista vive. Sem negar a força que possam ter tais imagens, não há como não reconhecer a obviedade do recurso. Já o narrador de Lorde, não circula exclusivamente pelas margens da cidade como modo de evidenciar sua condição de fora-de-lugar, mas ele explora justamente a sua inadequação em espaços que fazem parte de uma paisagem internacionalizada de uma capital turística como Londres. Por isso, a National Gallery, com seus quadros valiosos visitados diariamente por milhares de turistas, é o espaço ideal para evidenciar a condição de estranho/estrangeiro do narrador. Assim, se a inadequação ao espaço é trazida no romance de Gamboa pelo que é externo ao protagonista –os amigos migrantes, a hostilidade da cidade–, em Noll ela emerge da subjetividade do narrador. É interessante notar ainda que o narrador de Lorde também é inadequado nas margens, como na passagem em que ele se junta aos moradores de rua e participa da morte de um deles.

Encontro e fuga
Desse modo, em Lorde, um consagrado escritor brasileiro aceita o convite de uma universidade britânica para ser escritor e palestrante residente em Londres durante uma temporada. No entanto, sequer é possível falar em promessas não cumpridas, como no caso da narrativa de Gamboa. O personagem de Noll (vale lembrar que é quase sempre o mesmo em diferentes romances) não está em busca de promessas. O que ele empreende é a execução de uma fuga sem plano. Ele foge inicialmente do Brasil e de uma certa monotonia que a consagração, que ele renega, lhe trouxe. Uma vez fora de seu país, segue em fuga: de seu anfitrião na Inglaterra, posteriormente de Londres e até de si mesmo, quando, no desfecho do romance, seu corpo se metamorfoseia no do outro.

No romance de Gamboa assim, uma narrativa tradicional em que o processo de formação de um escritor latino-americano é descrito segundo passos mais ou menos pré-determinados: a busca por um grande centro cultural, as decepções com o que esse centro pode oferecer, a descoberta de si via sexualidade, a descoberta do outro por meio do contato com culturas diferentes, o pedido de bênção aos escritores que já se consagraram com percurso semelhante e, por fim, uma sensação de experiência acumulada que possibilita ao leitor enxergar as potencialidades do artista que ele viu surgir diante de seus olhos.

Nesse sentido, a experiência, enquanto acumulação não importa ao protagonista do romance de Noll. Sua chegada a um grande centro se dá por meio de uma série de eventos que são convenientes para que ele execute um projeto de fuga, não de busca, como é o caso do esperançoso Esteban. Não que o personagem de Noll seja um cínico ou um pessimista, já que, muito pelo contrário, ele está em busca de um encontro com o outro, de fazer mover a dinâmica da afetividade entre os homens. Assim, ainda que não busque acumulação de experiência no pólo cultural a que acorre, o narrador de Lorde, se decepciona com o aprisionamento que lhe é imposto pela sua própria obra, que surge no apartamento, às vésperas da fuga completamente empoeirada, mas que é ao mesmo tempo a única memória, ainda que estranha, que tem de si na terra estrangeira. Vale então chamar a atenção para a crítica que ambos romances trazem sobre a potência dos grandes centros culturais do mundo ocidental: Londres e Paris, enquanto metrópoles da república mundial das letras, isto é, cidades-instituição do campo literário, são incapazes de, por meio de seus instrumentos tradicionais de formação cultura –principalmente a universidade no caso do dois romances–, proporcionarem uma experiência criativa para os escritores. É justamente pela consciência da diferença e do sentimento de estranhamento ante esse espaço que os dois artistas se sentem estimulados a seguir. Há, desse modo, uma força repulsiva de mão dupla no encontro entre o intelectual da periferia e as instituições culturais das metrópoles.

Se Esteban se empenha para conseguir encontrar-se com os grandes escritores latino-americanos residentes em Paris, com os quais faz longas entrevistas sobre o lugar da literatura de seus países de origem, o narrador de Lorde não se interessa absolutamente pela produção intelectual daqueles que o recebem em Londres. O seu encontro com o professor Mark, por exemplo, é narrado a partir de uma perspectiva mais corpórea que intelectual. Sua vontade de conhecer o outro se traduz, como é praxe nas personagens de Noll, no desejo erótico. Assim, ele e Mark não se detêm em conversas sobre a literatura, seus países, etc. Sua relação é construída com base num afeto que o narrador logo vê como impossível e, após um acesso de choro, foge da presença do inglês.

Há também em Noll um desejo de uma descoberta de si a partir da sexualidade, como a cena descrita acima insinua, mas que é também descoberta do outro e que não se presta, como em Gamboa, a uma noção de amadurecimento. As imagens que a narrativa de Lorde obtém das cenas de sexo são bastante significativas do sentido que o narrador dá a sua trajetória. É importante se fixar na cena final em que após a mistura dos semens do narrador e de George, seu último parceiro, ocorre a metamorfose dele no outro, num ato que de algum modo exprime o sentido da personagem na narrativa, isto é, fugir de si sem deixar de ser-se e penetrar na alteridade sem perder-se completamente de si. Não é, definitivamente com a geografia dos espaços que ele consuma seu ato, mas com a geografia dos corpos e de uma subjetividade delirante que marca todo o romance.

O cartesianismo do processo evolutivo de amadurecimento do protagonista de A síndrome de Ulisses, é recusado pela narrativa de Lorde. Não há experiência acumulada no narrador de Noll, mas um sempre-presente que, se guarda alguma memória, a tem como um incômodo para as metamorfoses e fugas que ele empreende. A Colômbia de Esteban também é um peso com o qual ele ainda tem dificuldades de lidar, ao passo que o Brasil de Noll é uma referência distante, propositalmente citada como algo mais facilmente esquecível que os livros que escreveu ou mesmo as personagens do próprio romance que desaparecem sucessivamente do horizonte do narrador e, claro, da narrativa.

Doentes no/do exílio
A “síndrome de Ulisses”, referida no título, acomete uma personagem próxima do narrador. A história de Jung, um velho chinês com quem o jovem trabalhou num restaurante, é contada com algum detalhamento na narrativa, sem deixar de recorrer a certo exotismo, por um lado, e a um comentário político por outro. É uma história de amor incompleta, na qual Jung se viu obrigado a abandonar a China e a amante. Eternamente inconformado com a sua situação, Jung é um homem deprimido, mas bondoso, que apadrinha o jovem e imaturo Esteban, ensinando-lhe lições de pai e de mestre chinês. Sua depressão, em decorrência da síndrome, o leva ao suicídio quando Ming, sua esposa, finalmente chega a Paris. O desenho trágico de sua história é uma das linhas narrativas em que Gamboa mais investiu no romance. Ainda que guarde alguma força, ela se perde nos clichês e num certo apelo fácil à emoção com o conjunto de desencontros trágicos que enceta.

Os recursos utilizados para introduzir alguma emotividade em A síndrome de Ulisses podem ser contrastados com aqueles que Noll utiliza em seu texto. Há efetivamente no narrador de Lorde uma vontade e uma recusa de afeto que não são trágicas por uma trama que o coloque diante de situações-limite inescapáveis, mas pelo sentimento de inadequação, que atravessa o espaço geográfico, o espaço social, e o espaço da subjetividade desse personagem. A patologia não está como em A síndrome de Ulisses no outro, mas no próprio narrador-protagonista do romance. É esse, talvez, o ponto que faz com que os romances alcancem resultados tão diferentes: a sanidade do narrador do romance de Gamboa é incompatível com a insanidade que o próprio título do romance anuncia, ao passo que o romance de Noll mergulha sua personagem naquilo que o exílio pode ter de patológico, dotando-a, dessa maneira, de mais humanidade.

Anderson da Mata.
Doutorando em Literatura pela Universidade de Brasília.
As discussões sobre os livros comentados foram realizadas o 01.06.2007 (A síndrome de Ulisses) e o 15.06.2007 (Lorde).

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Compromisso com a realidade da catástrofe

Ricardo Piglia

Publicado em 1980, durante a ditadura militar argentina, Respiração Artificial, primeiro romance do argentino Ricardo Piglia, mergulha na história nacional e literária para encontrar um modo para falar do presente. O escritor passa a ser um misto de historiador e crítico literário, historicizando seu lugar de fala para poder dar conta de sua realidade. É claro que isso pode tornar a leitura de certa forma desprazerosa. O excesso de referências históricas e literárias pode parecer mero rebuscamento e uma contaminação por um discurso critico no que deveria ser “apenas um romance”.

Essa contaminação, porém, casa com o próprio projeto do livro: uma revisão da história nacional e literária da Argentina. Na verdade, “revisão” é uma palavra pouco adequada: as discussões sobre a história e a literatura argentinas encaminham-se muito mais para um dilaceramento dos mitos que as recobrem. Com isso, no entanto, a própria escrita de Respiração Artificial é posta em questão e fica esgarçada.

São vários narradores, os tipos de registros e as temporalidades inscritas no romance. De início, temos uma troca de cartas entre Emilio Renzi, um jovem escritor, e seu tio afastado da família, Marcelo Maggi, em que uma discussão sobre o passado familiar logo dá lugar às pesquisas históricas desse último. Depois de um longo monólogo do ex-senador Luciano Osorio, que nos é narrado ainda por Renzi, somos apresentados em seguida aos papéis de Enrique Osorio (avô do ex-senador), o fictício traidor e amigo de Rosas, ditador argentino do século XIX, e que é o objeto da pesquisa de Maggi. Por último, acompanhamos a viagem que Renzi faz a Concordia na intenção de encontrar-se com seu tio, porém, em lugar de um encontro entre os dois, o que temos é um longo diálogo entre o jovem escritor e Tardewski, um imigrante polonês que foi aluno de Wittgenstein antes da eclosão da Segunda Guerra.

É a partir desse personagem que aparece com mais força a imagem do fracasso, um dos temas da longa conversa que os dois travam. O fracasso seria o resultado dessa escrita, que vai se desfazendo, se expondo, se “descosendo”, para usar uma metáfora que retoma a proximidade entre “texto” e “tecido”. Todas as possibilidades aventadas durante a narrativa para um romance sobre a Argentina (romance epistolar; romance utópico; um romance feito somente de citações etc.) são executadas, questionadas, abandonadas e explodidas. As cartas que Emilio e seu tio trocam de início espelham-se nas cartas do futuro que Enrique Osorio escreve, e também nas cartas que Dom Luciano recebe no seu isolamento, também lidas pelo enigmático (seria um censor?) Arocena em busca de um sentido por trás (dentro?) da escrita.

A hipótese formulada no livro por Tardewski do encontro entre Kafka e Hitler talvez seja um dos pontos altos do livro. Numa narração que se pretende científica, mas que, por uma série de vicissitudes, constitui o próprio fracasso de uma verdade científica, pela impossibilidade de sua comprovação, a imagem desse encontro remete a um poder que se pode encontrar na ficção. O exemplo de Kafka serve para ilustrar um possível “poder premonitório” da literatura; contudo, o encontro fictício criado por Piglia em seu romance também afirma que a literatura possui, ou pelo menos deveria possuir, um compromisso com a realidade da catástrofe. Piglia encontra aí uma forma oblíqua de lidar com seu próprio momento histórico, em que dialoga não só com o presente, mas com seu passado literário, em especial com a tradição de Borges e Arlt.

O fracasso, seja da forma literária, seja das utopias da nação argentina, seja dos projetos pessoais dos personagens, é de onde esse livro extrai sua força. Através de um romance que desfaz os fundamentos da sua própria escrita, Piglia encena esses fracassos. Eles representam a falência de uma literatura e de um projeto histórico que precisam ser “descosidos” e postos pelo avesso para que possam, quem sabe no futuro, fazer algum sentido.


Vladimir Oliveira Santos.
Mestrando em Literatura Brasileira pela UnB.

Encontro da 6a. feira, 18.05.2007

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Lazos a prueba de crisis

O segundo tempo

El recuerdo en cuanto movimiento ondulante, ese ejercicio propio de quien retoma un episodio vital para compartirlo, es el motor de O segundo tempo [El segundo tiempo (*)], de Michel Laub. Es de ese vaivén que el autor extrae la fuerza de su más reciente novela. El pulso de la historia circula en torno al 12 de febrero de 1989, día del Gre-Nal del Siglo, una partida de fútbol que debe su nombre al encuentro de los equipos Internacional y Grêmio. La cita ocurre en el estadio de Beira-Rio en Porto Alegre, después de dos años de victoria continua del Grêmio. ¿Qué lleva a un individuo a fijar un momento en la memoria? ¿Qué lo lleva a recordar para luego contar?

La escritura se inicia con una idea apocalíptica: “Hoy el fútbol está muerto, y dudo que alguien aún llore por él” (p. 11). En un país como Brasil, donde el deporte es digerido y alimentado popularmente como un rito (entendido el rito desde el punto de vista ceremonial como algo que se repite, que sigue un patrón), es poco probable que el fútbol muera. ¿Para quién sucumbe entonces? ¿Quién [o qué] se desplomó a los 15 años con la idea del “fútbol moribundo”? Un narrador adulto que siempre aparece sin nombre hilvana la historia. Es para él -un periodista que suscribe guiones educativos con seudónimo, hoy con 31 años- que el fútbol no existe más.

En el ensayo Escritura y secreto, la escritora argentina Luisa Valenzuela dice que “el olvido se presta para que los recuerdos demasiado repetidos y obvios retornen desde otra parte, elaborados” (2003: 60). Se acostumbra escuchar que esos “retornos elaborados” son psicológicamente saludables. Es posible que procesar los recuerdos ayude a encarar los miedos. Teniendo esto en mente -continúa la novelista- la distracción y la desmemoria abren lugar para la sorpresa, la asociación inesperada, el descubrimiento. Al recordar, el narrador de O segundo tempo mastica, rumia, revisita la sinuosidad de un pasado adolescente. Reflexiona y da una nueva lectura a la circunstancia que lo llevó a cruzar el puente hacia el mundo adulto.

El fútbol es la excusa de O segundo tempo. El tema, sin embargo, desborda el perímetro de la cancha y se afirma en la “fraternidad a prueba de crisis familiares" y no en las representaciones rivales [Caín y Abel] o incestuosas [Ana y André en Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar] que rebosan las ficciones sobre hermanos. Sobrepasando la camaradería, esta novela deja traslucir la discusión sobre el nivel de compromiso, la capacidad de entrega, la opción por el más débil, las uniones decisivas y la consecuencia [ni tan aleatoria] de una elección.

La historia se construye sobre la base de una familia tradicional: un papá, una mamá, un hermano mayor y uno menor. Más adelante aparece la figura [femenina] que detona las rupturas. El entorno financiero que bordea la familia lleva a pensar una estructura mayor, también fracturada. Familia fracturada… ¿país fracturado? La idea del país fracturado es más notoria después de reparar en el entorno que provoca la quiebra de la empresa familiar [un mini-mercado y ocasiona la mudanza del grupo [de una casa a un apartamento pequeño]; en la venta o donación de la mayoría de los muebles, y en el despido inaplazable de la empleada de servicio.

El padre de los chicos [vendedor de pólizas ya en el 89, luego de la bancarrota del negocio propio] renuncia a la aseguradora y se marcha de casa ese 12 de febrero. Puertas afuera la ciudad hierve, todos han tendido sus sentidos al sol del Juego del Siglo. Hay embotellamientos en los túneles. El viaducto de la avenida Duque de Caxias continúa lleno de tiendas de cuero y revistas usadas. La Brigada Militar [a caballo] busca controlar el tráfico cercano al estadio. La Avenida Lima e Silva despide melancolía... la Venâncio Aires… la Olavo Bilac… la José do Patrocínio. Puertas adentro [y antes de que el mundo privado se desmorone] reina la discordia.

Acostumbrado a levantarse de madrugada, “el padre” llega abatido de las jornadas de trabajo. Sigue una rutina desgastada y sin salida: entrar a la casa, hablar en términos mecánicos (talleres, filtros, aceleradores) y sentarse a comer. El lector se encuentra frente a un señor de 50 años que creció en el interior de Brasil, desciende de una familia portuguesa, tuvo una formación rígida y soñó con ser dueño de una estación de gasolina. Se llama Marcos, pero sólo se sabrá al final. En esta historia los nombres casi no importan. Es como si la elección de cada adulto pesara mil veces más que el autor de la decisión. O como si ningún nombre pudiese aguantar tanto entuerto sobre los hombros.

A ella, a “la madre”, se le ve aguardando en la sala. Son horas y horas. Toma medicamentos a diestra y siniestra, asiste a terapia. Ya vivió colapsos que le impidieron salir de la cama. Llegó a ser el tipo de ama de casa que recibe al marido con el horno encendido y el plato en la mesa. Sus dedos están repletos de surcos por causa del detergente. Nunca discute, mucho menos explica, las causas del trastorno que la lleva a divisar el fin de la propia vida.

Versado en el fútbol de mesa y las historietas, el narrador [con 15 años] le traduce al hermano pequeño una parte del desequilibrio familiar. Sólo una parte porque la totalidad es casi inexplicable: reacciones del padre, cansancios, cobardías e inercias, discusiones, letargias, impulsos y chantajes, excusas y explicaciones omitidas. Pocas veces salió de Porto Alegre. De él se espera no más que una pobre escolaridad y un buen comportamiento: “Si quieres saber lo que yo hacía a los 15 años” -dice el chico- “si había una muchacha por la que me interesase, alguien a quien te dedicas sin exigir nada a cambio, que tienes miedo de perder no por motivos egoístas sino porque es una presencia que basta, que te impide pensar en lo que fue o puede haber sido, es ésta la respuesta que tengo para dar: yo frente al televisor, también mirando a Marcos Vinicius, aún la sombra del tiempo en que esperaba la semana entera para ir al estadio con papá” (LAUB: 2006, 52).

Finalmente está Bruno, sujeto de la discusión y único nombre que tiene completa relevancia desde el vamos. Con 11 años, Bruno es el pequeño de casa. El hermano que se debe proteger y que al mismo tiempo se inspira en el mayor vigilando sus preferencias. Cursa el 5° grado y se muestra interesado -desde siempre- en el fútbol.

Agua pasada, agua pisada
Si bien O segundo tempo conecta con frecuencia el campo y los afectos (tejido de delicadeza extraordinaria), una metáfora da forma a lo que el quinceañero comienza a sentir. Nilson, jugador del Inter (equipo que decide la partida) entra a la cancha con una rodilla lesionada. La banda está en la rodilla derecha pero la lesión está en la izquierda: “Nunca hablé de Nilson con nadie. De hecho, nunca hablé mucho sobre los errores del Gre-Nal del Siglo, sobre cómo ellos pueden haber influenciado los rumbos de aquel domingo, porque en general los cambios no son identificados apenas en un momento. Es un proceso(…) que comienza mucho antes y termina mucho después (**)” (LAUB: 2006, 25).

La razón por la que Marcos abandona a su familia tiene nombre y es delgada. Se llama Juliana. Es más joven que “la madre”. Se desempeña como funcionaria de un banco y fue trasladada de Porto Alegre a Goiânia en 1989. El instante en que Juliana, Marcos y el hijo de 15 años se conocen, en un mercado, es definitivo para comprender que ningún cambio sucede por arte de [estricta] magia. La confianza entre “el padre” y Juliana, a escondidas de la madre, despierta en el chico las nociones de familiaridad, de tiempo y de sospecha: “La conciencia emerge como espanto, después perplejidad, después un incomodo que se transforma en un impulso sin regreso, entonces por la primera vez decido hacer las cosas a mi manera” (p. 73).

Puede que sea ésta la acepción de “segundo tiempo” que el autor quiere salvar. No el segundo tiempo del partido, ni la trillada “segunda oportunidad”. Sino ese insight, ese instante de gracia, en que la duda queda hecha polvo. Con “el padre” en Goiânia es el chico de 15 años quien se encarga de Bruno y “la madre”. Recaen sobre él las compras del supermercado, los deberes del hermano, el pago de los servicios, la vigilancia de “la madre”. En síntesis: la manutención de una estructura para el hermano. Así, al evitar el abandono -y la repetición del modelo paterno- el hermano mayor trunca en Bruno la gestación de un trauma. De una situación que, sin duda, habría moldeado un carácter conflictivo. Si hay tragedia -parece decir este narrador- que por lo menos sea formadora.

Y es la derrota del Gremio lo que le lleva a vislumbrar el significado que una frustración (dada la expectativa de Bruno, una frustración infinita) puede tener en un ser humano de 11 años. El curso del fracaso que, buena parte de las veces, los adultos dejan correr sin noción aparente de las consecuencias. Lo que el narrador recuenta es el detalle de un avance, lo que se pregona en el epígrafe de Hanif Kureishi, en la página 7: “Quién sabe si cada día no debiese tener por lo menos una infidelidad esencial o una traición necesaria”.

Si el episodio es real o no, poco importa. No tanto por el anuncio minúsculo de la página que contiene los datos editoriales (“algunos de los eventos, personajes, referencias geográficas y secuencias cronológicas aquí descritos se fundamentan en la realidad, mas pertenecen al universo de la ficción. Esta obra no emite opinión sobre personas y hechos concretos”, p. 4) como por la sencillez con que nos vemos envueltos en los aprietos y ahogos de una familia de clase media, venida a menos, como muchas iles de las que nos rodean: "Escritores y escritoras sabemos de la confluencia de las aguas del lenguaje con las que se pretende confundirnos, y al escribir nunca nos confundimos. Buceamos en esas aguas, las exploramos en profundidad, buscamos los tesoros ocultos, alcanzamos con suerte la orilla del Secreto. Y no nos confundimos. ¿Cómo aprendimos a hacerlo? Leyendo ficción, pero a fondo, en los matices y entrelíneas, en las connotaciones, allí donde cierta verdad puede ser agazapada. En los silencios" (VALENZUELA: 2003, 57).

Notas:
(*) El libro no ha sido traducido al español.
(**) Las negritas son nuestras.

Referencias bibliográficas:
LAUB, Michel. O segundo tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
VALENZUELA, Luisa. Escritura y secreto. Madrid: Cátedra Alfonso Reyes (Instituto Tecnológico de Monterrey) y Fondo de Cultura Económica de España, 2003.

Francismar Ramírez Barreto.
Periodista y Magister en Literatura Brasilera por la UnB.
Encuentro del viernes 14.09.2007.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Colóquio de interesse

Prezados colegas,

a continuação verão a programação do colóquio que coordenam as professoras Regina Dalcastagnè, Luciana Rassier e Rita Olivieri-Godet. Acontecerá a próxima semana, os dias 30.08.2007 (quinta-feira) e 31.08.2007 (sexta-feira), na Universidade de Brasília. O objetivo, segundo a minuta que a prof. Regina coloca na própria programação, será "abordar as diversas linhas seguidas e promovidas pela literatura surgida a partir da década de 1980, de modo a captar suas conseqüências no conjunto e no interior das obras literárias".

Durante o colóquio (ambos dias) também será possível assistir a uma exposição de pôsteres nos corredores do Depto. de Teoria Literária e Literaturas (TEL) e observar dados obtidos como resultado de amplas pesquisas realizadas pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da UnB, sobre poesia (sob coordenação da prof. Sylvia Helena Cyntrão), teatro (sob coordenação do prof. André Luís Gomes) e romance, conto, cinema e cordel (sob coordenação da prof. Regina Dalcastagnè).

Assistam e passem a voz.
Nos vemos por lá,

Francismar Ramírez B.

* * *

DESLOCAMENTOS E DIÁLOGOS
NA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

DIA 30.08.2007 (5a. feira)
8h30. Abertura: reitor, coordenador de Pós-Graduação em Literatura, chefe do Depto., organizadoras.

9h30-12h00. Mesa 1: Literatura e outros lugares. Mediador: Rogério Lima (UnB).
* Configurações do espaço na Literatura Brasileira Contemporânea: Luis Alberto Brandão Santos (UFMG)
* Do refúgio ao refugo: a visão anti-idílica da natureza em contos de Clarice Lispector e Maria Judite de Carvalho: Ermelinda Ferreira (UFPE).
* Literatura em quadrinhos, quadrinhos na literatura: Andrea Saad Hossne (USP).
* O(s) lugar(es) da poesia -(Muito) além do livro: Adalberto Müller (UnB).

12h00-14h00. ALMOÇO.

14h30-17h00. Mesa 2: Literatura e outras culturas. Mediador: Robson Coelho Tinoco (UnB).
* Escritura híbrida e identidades compósitas em Salim Miguel: Luciana Wrege Rassier (La Rochelle).
* A busca do outro no processo de formação do escritor. O diálogo de Salim Miguel com os escritores africanos nos anos 50: Juliana Marçano Santil (Institut d'Études Politiques de Bordeaux).
* Salim Miguel: luz e sombra em relatos da imigração: Maria Zilda Ferreira Cury (UFMG).
* Exílio e poente. A ficção de Milton Hatoum: Maria Isabel Edom Pires (UnB).

18h30-20h00 (Auditório da Reitoria). Mesa de escritores. Mediadora: Sulvia Helena Cyntrão (UnB).
* Ana Miranda.
* Salim Miguel.

20h00 (Salão de Atos da Reitoria). Coquetel de lançamentos e sessão de autõgrafos. Edição francesa do livro 1° de abril, de Salim Miguel, com tradução de Luciana Wrege Rassier; O sabor da fome (contos) e A voz submersa (romance), de Salim Miguel; La littérature brésilienne contemporaine de 1970 à nos jours, organizado por Rita Olivieri-Godet; a Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporâena N° 29 (com dossiê sobre "escritas da violência"), e a Revista Cerrados N° 23 (com dossiê sobre "tradução de obras francesas no Brasil").

DIA 31.08.2007 (6a. feira)
9h00-11h30. Mesa 3: Literatura e alteridade. Mediador: João Vianney Cavalcanti Nuto (UnB).
* Alteridade invisível. O índio em Nove noites, de Bernardo Carvalho: Rira Olivieri-Godet (Rennes 2).
* Malabares: o intelectual e as fronteiras deslizantes: Ivete Walty Camargos (PUC-Minas).
* Experiências recentes da poesia brasileira. Mudanãs de paradigma?: Iumna Maria Simon (USP).
* Um território em disputa. Representação e auto-representação de grupos marginalizados: Regina Dalcastagnè (UnB).

12h00-14h00. ALMOÇO.

14h30-17h00. Mesa 4: Literatura e mulher. Mediador: André Luís Gomes (UnB).
* Identidade e bastardia feminina em Lya Luft e Milton Hatoum: Leonardo Tonus (Université Paris Sorbonne - Paris IV).
* Gênero e etnia, história e ficção na produção literãria de nisseis brasileiras e estadunidenses: Cristina Stevens (UnB).
* De volta para casa, ou O caminho sem volta de três mulheres do Brasil: Simone Schmidt (UFSC).
* Narrativas de formação contemporâneas. Uma questão de gênero: Cíntia Schwantes (UnB).

17h15-18h00. Mapeamento da literatura brasileira contemporânea.
* Regina Dalcastagnè;
* André Luís Gomes.
* Sylvia Helena Cyntrão.
* Maria Isabel Edom Pires.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

La escritura fluctuante de Milton Hatoum

Cinzas do norte

Manaus, el Río Negro y el Río Amazonas constituyen el cuadro donde Milton Hatoum sitúa su tercera novela, Cinzas do Norte (Cenizas del norte), en la cual somos testigos de la amistad entre Lavo (el narrador) y Mundo (su amigo de infancia), durante los años de la dictadura brasilera.

Metafóricamente anunciado en el título, el autor nos cuenta el destino de los personajes y de la ciudad, y nos describe las relaciones complicadas entre las familias de Lavo y de Mundo, en un contexto histórico, regional y geografico claramente definido. Milton Hatoum registra con precisión los eventos y los lugares de vida. Estos últimos -la ciudad, la casa, la escuela, la selva, los viajes en barco- son amorosamente descritos. Algo borroso, sin embargo, fluctúa en la filiación entre Jano y Mundo. Algo nebuloso envuelve los vínculos afectivos de los personajes.

En el curso de la historia, aprendemos que Lavo vive con su tía Ramira y su tío Ranulfo, que tienen respectivamente una relación o idealizada o vivida por Jano y Alicia (padres de Mundo). Cuando no esta con Alicia, Ranulfo pasa su tiempo leyendo, vive mantenido por el humilde trabajo de su hermana Ramira, verdadero pilar (ella) de este grupo de parientes sin pareja ni padres. No obstante, el ambiente familiar está plantado en los afectos, los diálogos, las lecturas y los olores de la comida preparada por Ramira.

En la otra familia -el rico palacete del proprietario de la empresa de yute- el ambiente está más tenso. La dupla madre-hijo se opone constantemente al autoritarismo del padre: “a disciplina… um sonho besta do meu marido” (“la disciplina… un sueño bestia de mi marido”), dice Alicia, quien organiza escapadas con su hijo en Copacabana.

Desesperado por la actitud del hijo, Jano intenta utilizar a Lavo como modelo para poner fin a las tendencias artísticas de Mundo. Fracasa pero consigue que Mundo se integre al cuerpo militar por un tiempo bajo el comando de amigos militares. Un simple frase pinta con eficacia al ambiente de la época: “O tenente Trevo via subversivos nas árvores, ouvia um ruído nas folhagem e disparava com ferocidade” (“El teniente Trevo veía subversivos en los árboles, oía un ruido entre el follaje y disparaba con ferocidad”). El final de la novela revela la verdadera filiación de Mundo.

La intriga se sostiene en una escritura que anuncia algo funesto desde el título y la novela empieza con la carta de un “Mundo” moribundo dedicada al narrador, ahora un hombre maduro: “Uns vinte anos depois, a historia de Mundo me vem à memoria com a força de um fogo escondido pela infancia e pela juventude” (“Unos veinte años después, la historia de Mundo me viene a la memoria con la fuerza de un fuego escondido por la infancia y por la juventud”). Todo termina en cenizas, pero la memoria queda viva.

El rasgo distintivo de la escritura de Milton Hatoum podría ser la serenidad que emana de su texto. Desde el comienzo, el lector se deja llevar por el encadenamiento de las descripciones históricas, geográficas y de los personajes, particularmente logradas cuando se trata de describir la bella Alicia y su relación con su hijo. El desarrollo de la intriga se ve interrumpido por cartas escritas para Mundo que se insertan en la historia.

Los personajes pueden ser patéticos, fracasados o decepcionados en sus aspiraciones; pueden engañarse mutuamente sin que jamás la escritura sufra de esta triste situación; pero Milton Hatoum los presenta de una forma que termina conquistando al lector. El relato está enriquecido con los propios comentarios de los personajes (*). La coherencia del perfil de los caracteres y el cuidado otorgado al vocabulario es tan convincente que el lector entra en sintonía con el ambiente cálido y fluido de Manaus. De nuevo, Milton Hatoum se ha tomado el tiempo para escribir. Gracias a ello, la novela se lee al ritmo del gran río que roza Manaus, en un tiempo armónico y a contracorriente de la moda.

Dominique Liabeuf.
Magister en Lingüística y Literatura Contemporánea Francesa (París VII - Diderot). Cursó también un Diploma de Estudios Aplicados en el área de Antropología (Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, section Chine).

* * *

(*) ¿Qué se dicen los personajes?

Alicia falando com Jano
“Lavo é muito tímido... ficou órfão antes de falar mamãe”.

Alicia falando com Lavo
“Ramira sempre foi cobra na cozinha e na costura. Cobra em tudo que faz. Alias bem diferente de tua mãe… Ramira sempre foi esquisita, morria de ciúme da tua mãe, de todos”.

Jano falando de Lavo e Mundo
“Teu sobrinho promete coisa melhor... bem melhor que o tio e meu filio, que até agora não prometa nada”.

“Quero que Mundo ande por aí e largue essa mania de desenhar, desenhar...” - “Nehum livro de matemática nas estantes. Só arte, poesia.. pior ainda: nehuma fotografia de mulher, a não ser a da mãe. Meu filho não pode continuar assim”.

Jano falando do pai
“A vida do meu pai está arquivada aqui. Ele veio de Portugal sem um tostão no bolso. Só coragem e vontade de ser alguém. Um homen religioso que acreditava na civilização, no progresso”.

Mundo falando do pai
"Vou estudar e morar no colégio militar... não quero fugir, agora quero ir até... o fim da vida ou a dele não é a aposta que ele quer fazer?".

Lavo depois da oferta de Jano
“Ficou à espera de uma palavra ou gesto de assentimento, sem pensar na minha humilhação ou vergonha... o homen me oferecendo com a mão direita um envelope cheio de dinheiro, como se quisesse compartihar comigo o inferno moral, que era só dele” - “Nunca falei a Mundo dessa oferta generosa e infame”.

Ranulfo
“Trabalhando mana, trabalhando com a imaginação dos outros e com a minha”.

Ramira falando do irmão
“Um cigano... Aparece de vez en quando, depois some”.

Ramira falando de Jano
“é uma “mistura de riqueza material e correção moral fazia de Jano um ser perfeito. “a única falha desse santo homen foi cair no feitiço daquela mulher (Alicia)”.

* * *

PS1. Encuentro correspondiente al jueves 14.09.2006.
PS2. Para más información, se puede consultar el site: http://outrababel.blogspot.com/2007/05/cinzas-do-norte-de-milton-hatoum.html

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Miséria multicolorida

Contos negreiros, Marcelino Freire

Negros negros, negros brancos, negros pobres, negros ricos, negros machos, negros fêmeas, negros gays. É essa a matéria – a paisagem, as tintas e a tela – nas mãos de Marcelino Freire, em seu último livro, Contos negreiros. São 16 contos distribuídos em pouco mais de cem páginas. Como temática central, a variedade "cromática" das misérias humanas e sociais, tão comuns e algumas vezes irrelevantes aos nossos olhares.

O que menos vai importar é a posição étnica de seus narradores, protagonistas, personagens, atores. As relações que eles constroem, a realidade que o autor nos pinta, aliadas à agressividade ritmada da escrita de Freire, é que são negras. Não podemos categorizar ou enfatizar a categorização social referente a raça, cor ou qualquer outro elemento. O fato é que os contos trazem às vistas toda a miséria, o descompasso, nos retiram de um mundo cor-de-rosa e nos fazem esbarrar na realidade: nosso passado colonial é presente e os escravos são agora multicolores.

Ironia, sarcasmo, secura e, em contraponto, pinceladas de uma poesia singela, rimas fáceis, jogos de palavras, trocadilhos, presentes em toda a obra do autor, são traços fortes desses contos. Logo na apresentação, o cearense Xico Sá esboça o que virá pela frente: "o cabra mal começa, acabou-se. De tanto punch, de tão amargo, de tão doce – prosa-rapadura, contraditória?! A gente lê voando, priu, num sopro" (p. 11). A dureza e a agressividade dançam com a doçura sarcástica, piegas, ridícula.

O grande mote dos contos é o desconcerto que pretendem causar ao leitor. "Solar dos príncipes" não tem precedentes. Narra a história de cinco negros que descem o morro para fazer um documentário sobre a classe média. Apossados de instrumentos praticamente inacessíveis a eles – equipamento de produção cinematográfica –, tentam produzir um filme sobre o cotidiano da classe média e são barrados pelo porteiro. Também negro, o porteiro tem um posicionamento "fora do lugar": trabalhando para pessoas abastadas, ele toma partido, nessa cena inusitada, de seus patrões. É como um feitor ou capitão do mato, no período escravocrata. Absorve uma postura de embate – tipicamente a da classe média atual, tão aterrorizada pela violência urbana – e rechaça seus pares.

Em "Coração", a voz que escutamos é a de um travesti prostituído, que masturba homens no metrô. Ainda rara, e bastante discutível, a presença gay na literatura brasileira pauta-se ou pelo estereótipo acrítico ou pelo cuidado insistente na construção, em resposta aos movimentos organizados. Isso não acontece em Contos negreiros. O narrador de "Coração" não levanta bandeiras, não pede respeito, não reclama de sua miséria. Desconcerto: o narrador personagem tem densidade. Não é apenas uma presença gay, mas uma voz ativa, que é vítima, mas que também faz escolhas, pensa a sua realidade, vive, sobrevive, flutua, sofre e morre de prazer.

O deslocamento de ossos, para usar expressão do próprio Freire, o desconforto e a surpresa seguem na construção do livro. Eles são, ao lado da miséria multicolorida, o fio condutor das narrativas – a fonte de conteúdo e forma da obra. "Totonha", o canto XI, desmonta o leitor erudito. Mais uma vez, as nossas restritas concepções e verdades absolutas e universais sofrem abalo. Totonha, a personagem, é uma velha senhora, que, com seu discurso trocado, ao contrário, nos desperta: ela não quer aprender a ler. A sua negra realidade é tão natural, apartada do mundo cultural – restrito aos alguns que o pensam e o consomem –, que não lhe servem a leitura e a escrita. "Capim sabe ler? Escrever? Já viu cachorro letrado, cintenífico? Já viu juízo de valor? Em quê? Não quero aprender, dispenso" (p. 79).

Os preconceitos – rompidos ou expostos – ultrapassam questões de cor e se escancaram em relações colonizatórias dirigidas a mulheres, gays, pobres etc. E é inovador, algo pós-Pós-moderno, o modo como Freire não somente expõe, mas também deixa que o leitor sinta a sua incapacidade de narrar a realidade espedaçada que vê, lê, assiste, vive. Ele subverte a tão recente lógica do texto "politicamente correto" e transgride, pelo menos no espaço do conto, seu papel de autor, quando veste-se ou traveste-se de negro, de negra, de viado, de pobre, de humilde. Sem medo de uma crítica puritano-moralista, deixa fluírem seus preconceitos, suas visões parciais, seus recortes. Ao mesmo tempo, não sugere ao leitor uma relação pacífica com essa realidade; incita, cutuca, inflama... e, para citar Xico Sá, "dá belas chibatadas no gosto médio e preconceituoso, com gozo, gala, esporro, com doce perversidade, sempre no afeto que se encerra numa rapadura" (p. 13).

A obra desconcerta certezas. Põe em xeque o cartesiano e "canônico" fruir literário e o conservadorismo social, quando transcende não só os embates classistas, mas a língua culta – preocupação quase sexual de alguns gramáticos ou saudosistas de um passado glamouroso que não houve – e também a quase instransponível barreira do senso comum, tão vinculado às percepções ocidentais modernas.

E é essa a grande sacada de Freire e alguns de seus contemporâneos: lidar escrachadamente com estereótipos, não de modo a reforçá-los, mas a fazê-los gritar, chamar a todo instante e de modo violento a atenção do leitor. E o autor tem consciência de para quem escreve, na ferida de quem ele quer meter o dedo: é o intelectual leitor de classe média o interlocutor incomodado de Freire. Ou é o principal alvo, pelo menos, de livros tão bem trabalhados visualmente – atrativos para os olhos e embrulhados para o estômago.

Liana Aragão.
Mestre em Literatura pela Universidade de Brasília.
Encontro da terça-feira 29.11.2005.

O paraíso fragmentado

O paraíso é bem bacana, André Sant'Anna

Futebol, escatologia, doença, sujeira, relações humanas deficientes e baseadas na ignorância. Isso dificilmente se concretizaria em um produto-livro bem acabado e publicado por uma das maiores editoras brasileiras. É o que nosso imaginário permite antever. E quando nos damos conta de que estamos diante de quase quinhentas páginas de um romance cujo protagonista é negro, aí temos a certeza de que esse livro é uma ficção. Não a história que ele traz em si, mas a própria existência dele como produto editorial.

O paraíso é bem bacana, de André Sant'Anna, existe. E foi publicado em 2006 pela Companhia das Letras. E tem quatrocentos e tantas páginas e um protagonista negro. O cenário oscila entre a lógica que rege o universo do futebol no Brasil e no mundo e a realidade crua, pobre e sem perspectiva daqueles desprovidos de cidadania. Se isso significa uma mudança sócio-estrutural nos interesses mercadológicos da indústria de livros, é difícil afirmar por agora, mas o fato é que esse objeto já representa uma dissonância com relação aos produtos que compartilham as prateleiras das asseadas livrarias.

Mané tem dezessete anos e é um verdadeiro talento do futebol. Depois de passar por pequenos times do interior de São Paulo e chegar a categorias adolescentes do Santos Futebol Clube, é descoberto por agentes responsáveis pela indicação de nomes a grandes times internacionais. Vai para a Alemanha e passa a jogar no Herta Berlim BSC. Um grande jogador: admirado por todos os que o assistem em campo.

Isso poderia ser uma história de sucesso, finalmente. Mas não. O resumo pode ser esse mesmo, mas entre um passo e outro dessa trajetória nos deparamos com um jovem doente. Sem pai e com a mãe prostituída e negligente, Mané nasceu em Ubatuba-SP, e sempre viveu em um bairro pobre. Não conseguiu acompanhar a escola – mesmo sendo requisito para participar das escolinhas dos times pelos quais passou – e era alvo de chacota dos amigos. Construiu uma noção de sexo baseada no prazer efêmero e na escatologia, a partir de piadas dos amigos, de explicações descontextualizadas e de revistas e filmes do gênero.

Poderia ser uma batida história de sucesso, apesar dos fracassos constantes da infância. Mas não. Apesar da tentação de ir por esse caminho, o mote do romance de Sant'Anna é outro. O auge do enredo é explicitado logo no início: Mané explode o próprio corpo num atentado que julga ser uma prova de devoção a Alá. Um fracasso como ser social e também como terrorista muçulmano.

Se esses pequenos resumos parecem inconectáveis é porque estamos presos a um modelo muito linear de estrutura narrativa. Ainda mais diante do contexto: o livro é uma aposta de uma grande editora. Mas a doença do personagem e do universo que o cerca é mesmo impossível de ser contada por uma narrativa sã: daí que o(s) relato(s) se desenvolve(m) em fragmentos não continuados, depoimentos, visões. E o leitor torce para que tudo se arranje e se esclareça no fim.

Poderia, afinal, ser uma história de sucesso, apesar dos fracassos constantes e de uma adolescência confusa e atribulada, além do alheamento religioso. Poderia ser uma visão muito condizente com discursos de movimentos sociais, a partir de relatos desconexos e fragmentados, tal como a realidade se apresenta. Mas não. A miséria de Mané e dos personagens "bem sucedidos" que com ele interagem – se é que há interação – é central e carregada até as últimas linhas e conseqüências. Inclusive com a narrativa supostamente post mortem do protagonista.

A predisposição (intelectual?) para concluir e compreender algo pode nos levar à seguinte explicação: a aposta da Companhia das Letras se justifica pela complexidade do livro e da personagem. (Ou será que o fato de o autor ser filho de Sérgio Sant'Anna – consagrado escritor da geração da década de 1970 até agora, vencedor de grandes prêmios literários e com grande parte de seus livros reeditados pela mesma editora – é que explica a situação?) Esse e outros poderiam ser mais um ponto a compor o universo do livro. Decifrado – se possível – somente com a leitura, por ser portador de um discurso atual e real sobre o Brasil que vivemos. Poderia ser isso. Mas não.

Liana Aragão.
Mestre em Literatura pela Universidade de Brasília.
Encontro da quinta-feira 13.07.2006.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Pelo fundo da agulha, de Antônio Torres

pelo fundo da agulha, antonio torres

Último livro da trilogia do migrante iniciada em 1976, Pelo fundo da agulha traz para dentro do si mesmo, na imobilidade do personagem deitado na cama num estágio de consciência fronteiriço entre a vigília e o sono, o balanço da trajetória de Totonhim desde sua saída do Junco, interior da Bahia, aos vinte anos de idade, até a construção de sua vida em São Paulo – o ingresso no Banco do Brasil, o casamento com a filha do general, sua vida de casado, de separado e, finalmente, de aposentado. A associação livre da memória une elementos irremediavelmente separados pela vida.

A imagem de sua mãe passando uma linha pelo fundo da agulha define a narrativa que é tecida com fio que vem desde a estréia de Torres com o primeiro livro da trilogia, Essa Terra (1976). Esse livro bombástico esgotou edições e nele conhecemos o ponto de vista da gente pobre que vem e vai entre o interior do nordeste e São Paulo. O tema já era clássico na nossa literatura, mas o migrante na primeira pessoa não.

Empobrecida pela perda de sua propriedade para o banco e dividida pela diferença de visão de mundo do pai – quer permanecer na roça – e da mãe – quer ir para Feira de Santana onde há chance de progressão escolar para os filhos – a família busca na volta de Nelo sua última esperança. Nelo havia ido para São Paulo há vinte anos e não consegue suportar o peso das cobranças, especialmente das expectativas de sua mãe. Doente e fracassado, põe fim em sua vida. Entretanto, o suicídio de Nelo não mata o sonho da cidade de tentar a vida no “sul maravilha” e, no final, Totonhin entra no ônibus, mesmo contra a vontade do pai.

Com destino muito diferente do irmão, Totonhim prospera e se fixa em São Paulo. Volta para Junco apenas uma vez para uma rápida visita por ocasião dos oitenta anos de seu pai, motivo do segundo romance da trilogia, O cachorro e o lobo (1997). Nele acontece o confortante reencontro de Totonhim com sua terra, os sons, os sabores e as pessoas da sua infância e adolescência. Mas a realidade de sua vida é bem outra, e quando o pai pede para que ele fique ali, a impossibilidade de conciliação entre as duas vidas rompe e Junco fica para sempre nos parêntesis de um fim-de-semana.

Romances belos e sensíveis percorrem os dramas vividos na migração puxando fios que vêm desde Vidas secas (1938) e que passam por Morte e vida severina (1956) entretecendo uma outra trama: o personagem integrado. O jovem promissor que cumpre e ultrapassa todas as expectativas. Um menino especial que na infância já era conhecido pelo gosto da escrita e que desenvolve o gosto pela literatura. Assim é que não intriga o leitor o vasto saber literário do funcionário. Homem marcado por metáforas e lembranças.

No entanto, é de limites que trata o romance. A identidade esgarçada até o difícil reconhecimento no intervalo entre ser nordestino, sem mais sê-lo, e paulista que é sem ser. Pelo fundo da agulha revela Totonhim pelejando com suas memórias, relembrando as pessoas, os motivos, e os acontecimentos de sua vida para vislumbrar um sentido e um motivo para se levantar no dia seguinte.

Adriana Araújo.
Doutora em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Encontro da sexta-feira 16.03.2007